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Dra. Lucy Kerr, imagem microcalsificações

Câncer de mama sem microcalcificações de 7.4mm detectado em exame de rastreio de rotina no US, Doppler e na elastografia compressiva (stream) e de ondas de cisalhamento (shear waves)

Mamografía e dados pseudecientíficos

Nosso vídeo viralizado advertindo sobre ineficácia e malefícios da mamografia tem gerado muitos questionamentos das pacientes. E uma paciente levou as nossas informações para uma ginecologista da sua terra e foi confrontada com uma porção de dados pseudocientíficos, nos quais tenho certeza que a médica acredita, mas não refletem a verdade científica consolidada hoje.

Ginecologista pseudocientista

A ginecologista disse textualmente, sem qualquer edição da minha parte:  

Não concordo em nada. Há muito tempo a mulher pode fazer mamografia 2 vezes ao ano nas clínicas com selo do CBR por 50 anos consecutivos que não chega a 1cG. Portanto a radiação não tem efeito mutagênico. Segundo: o falso positivo existe, mas não tem exame melhor. A USG e termografia ou aquelas que avaliam temperatura apresentam muito mais falso-positivos. Terceiro provavelmente a depressão será maior naquelas que deixarão de fazer o diagnóstico precoce. Aí a mortalidade poderá ocorrer em até 5 anos em mulheres na pré menopausa ou até em 10 na peri menopausa. Quanto a COCHRANE,  mesmo tendo um fator de impacto de 6….ou qualquer outra instituição… não tem o poder ou direito de validar pesquisas científicas,  ela emite uma opinião baseada em um sem número de publicações… Quinto avaliem junto às mulheres que realizaram  o diagnóstico do câncer pela mamografia, estando ASSINTOMÁTICAS. Sexto: Todas as mulheres que concordam irão DEIXAR DE FAZER MAMOGRAFIA? PARA DEPOIS SEUS MÉDICOS serem acusados de NEGLIGENTES?

Minha resposta como médica

Minha Resposta: esta ginecologista tem a visão dela, que é muito limitada e nada científica. Não sabe sequer que a radiação não tem dose única para todas as pacientes como dá a entender, pois varia com o grau de densidade do tecido mamário (mais irradiação quanto mais densa) e com o tamanho da mama (mais irradiação quanto maior a mama).

Desconheço essa unidade de dosagem da radiação que ela referiu. E vou utilizar o gray (representado por Gy) que é a unidade no Sistema Internacional de Unidades (SI) de dose absorvida. Agora vamos simular uma mama densa e tamanho médio: ela receberá 25mGy de radiação a cada exame mamográfico que fizer e precisará de apenas 4 exames com 4 exposições para atingir a dose carcinogênica (suficiente para desencadear o Câncer de mama. Se a mama for hipodensa e de tamanho médio receberá 0.5mGy por mama a cada exposição e precisará de 50 exames para atingir a dose carcinogênica. Se realizada a cada 6 meses significará 25 anos até atingir a dose crítica. Se iniciada aos 40 anos – com 65 anos a mulher poderá ter o câncer gerado pela mamografia. Isso sem considerar outros fatores cancerígenos aos quais estamos expostos durante a vida e poderão ser antecipados pelo método radiológico usado regularmente. Entretanto, só metade da população tem mamas que receberão tão “pouca radiação” (viram no caso exemplificado que mesmo as doses mínimas não são pequenas ao longo da vida). As demais mulheres receberão muito mais irradiação, pois tem proporções variáveis de áreas densas.

Não existe dose de radiação sem efeito

E não existe dose de radiação pequena sem causar efeito em nosso organismo. A radiação desencadeia mutações potencialmente cancerígenas (mecanismo mais conhecido), assim como bloqueia por 2 meses a defesa própria do sistema imunitário da mulher, facilitando que um câncer que não cresceria, desenvolva-se e crie raízes (mecanismo mais recentemente descoberto e menos conhecido).

E não é possível avaliar o resultado de método de rastreio por casos, como ela relatou daquelas mulheres que tiveram o “diagnóstico precoce” pela mamografia. Só temos essa condição quando se faz análise em larga escala da população, como fez a Cochrane, o Conselho Médico Suíço e as Forças Tarefas EUA e Canadá.

Basta uma mamografia para desencadear o câncer

Se essa médica costuma pedir mamografias para mulheres portadoras de  mamas densas, que tem de 4  a 5 vezes maior risco de ter câncer de mama do que a população normal, ela estará prejudicando muito mais essas pacientes do que se não pedisse a mamografia, pois vários dos cânceres nessas mamas são genéticos e muito instáveis, desenvolvendo-se muito mais facilmente quando irradiados (na mutação AT- Ataxia-telangectasia  basta uma mamografia para desencadear o câncer).

Nas mamas com grau 4 de densidade (com mais de 90% de áreas densas), que consideramos hiperdensas, eu nunca vi a mamografia detectar 1 câncer sequer em mais de 40 anos de profissão. Mostramos um caso de mama hiperdensa no meu blog há alguns meses que tinha 4 tumores palpáveis e visíveis na mama esquerda à inspeção e nenhum deles foi detectável na mamografia

Aqui no Brasil os radiologistas não classificam o grau de densidade da mama na mamografia, que é hoje considerado o maior fator de risco, conforme comentado. E são falso-negativos da mamografia. Justamente para as mulheres de maior risco de câncer de mama, que mais precisam da mamografia, o método é mais ineficaz.

Nos EUA a detecção de mamas densas exige comunicação compulsória às autoridades competentes, pois já é líquido e certo que o método é inadequado para esse propósito e às mulheres terão que ser oferecidas outro método.

Conflitos de interesse

Enfim, esta médica tem uma visão parcial e muito incompleta do exame que utiliza para suas pacientes para poder dar uma opinião balizada. Ela está vendendo o peixe como comprou e desconhece que aqueles que a ensinaram tem sérios conflitos de interesse: a maioria dos mastologistas e ginecologistas da FEBRASGO que defendem a mamografia lucram com o método. E estão procurando retardar que a verdade seja conhecida.

Não fazer a mamografia é o melhor para ter menos câncer

Mas uma coisa é certa: não se avalia método por casos, mas em toda a população onde o método foi aplicado, o que fez a Cochrane. Eu e esta médica não conseguiríamos fazer isso, pois não temos a estrutura e os programas estatísticos que a Cochrane dispõe e que permitem interpretar coerentemente os dados. A propósito, a Cochrane escreveu a maioria das guidelines dos principais periódicos científicos em medicina, sendo a entidade mais respeitada para validar ou não a qualidade dos trabalhos científicos na área de diagnóstico, tratamento e prevenção. Ela pode e tem competência para analisar este assunto da eficácia da mamografia. E o diretor da Cochrane da Dinamarca, Dr. Peter C. Gøtzsche  diz no seu livro Mammography screening : truth, lies and controversy. Radcliffe Publishing. ISBN 9781846195853,  que a melhor coisa que mulher pode fazer para ter menos câncer de mama é não fazendo a mamografia.

Lucro vs. Ciência

Sobre esta médica diz que a Cochrane não é gabaritada para emitir pareceres sobre os trabalhos científicos em medicina só posso dar duas interpretações: não a conhece (ignorância) ou pode estar repetindo o que ouviu em congressos brasileiros (propaganda enganosa). E suspeito que os motivos não sejam louváveis: não querem admitir a ineficácia e malefícios da mamografia, pois haveria lucros cessantes!!!!! Caso contrário a ciência teria prevalecido.

Você não morrerá de câncer se não tiver o câncer!

A Cochrane não só tem o direito, como tem a missão de validar as pesquisas médicas, ela foi criada para separar o joio do trigo das pesquisas médicas. Talvez esta médica não saiba que a entidade condenou todas as pesquisas que mostraram que a mamografia reduzia a mortalidade por câncer de mama e o fato da mortalidade estar recusando-se a cair nos países onde foi instituída como método de rastreio comprova que sua avaliação foi correta. O diagnóstico do câncer de mama em mulheres assintomáticas geralmente revela-se carcinoma in situque não é câncer verdadeiro –  mas um nome errado para o que é apenas um dos inúmeros fatores de risco para o câncer de mama e entra na categoria dos falso-positivos. E você não morrerá de câncer se não tiver o câncer! Mas com o aumento da detecção decorrente destes erros diagnósticos as estatísticas da mamografia incham, sem que ela consiga reduzir a mortalidade ao longo dos anos nos quais foi instituída em muitos países (única forma de avaliar o resultado favorável do método).

Ultrassonografia e Termografia 100% inócuos

Sobre a médica dizer que os médicos serão condenados se não pedirem a mamografia e suas pacientes tiverem câncer de mama digo que é falso. Hoje há muitos mais argumentos que condenam a mamografia do que o contrário. Ou ela pode estar aceitando o terrorismo dos dirigentes das sociedades de ginecologia e mastologia, que têm mantido esse exame nefasto, estimulado as propagandas enganosas do outubro rosa, amedrontado os médicos que não solicitam a mamografia, mesmo que sem qualquer embasamento científico e eu pergunto: qual a justificativa? Em quais trabalhos sérios e que passaram pelo crivo da Cochrane e da Força Tarefa americana ou canadense eles se basearam?

Daqui há alguns anos, quando esse método abominável for abolido, estes médicos que hoje defendem a mamografia, terão muito que explicar!!!!

Concluindo: exame de rastreio só ser for 100% inócuo, como ultrassonografia e a termografia, para a mulher entrar e sair saudável!