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Sempre me impressiona quanto os médicos brasileiros subestimam os efeitos deletérios da  radiação ionizante. Talvez isso advenha do fato de nós jamais termos tido uma explosão atômica ou um acidente nuclear de monta para nos preocuparmos. O máximo que nos aconteceu foi o descarte inadequado de produtos nucleares em Goiânia que culminou com a morte das crianças contaminadas agudamente. Ou por que nada foi ensinado, na maioria das faculdades de medicina, sobre os perigos invisíveis da radiação ionizante. Mas essa ignorância não pode persistir se utilizamos radiação para fins diagnósticos. Durante as recentes catástrofes pelas quais passou o Japão, com terremoto, tsunami e acidente nuclear, tive a oportunidade de ler algumas pérolas que refletem a profunda ignorância sobre radiação de alguns médicos brasileiros (já me deparei com vários destes em congressos). Uma delas foi publicada na folha de São Paulo de 19.03.2011. O médico brasileiro que vive no Japão e é voluntário da ONG disque saúde, comparou a radioatividade de Tóquio com a de Guarapari- ES, uma das mais altas do mundo por causa das areias monazíticas de suas praias, dizendo que Tóquio estava praticamente sem perigo em decorrência da radiação, pois a radioatividade estava mais baixa que em Guarapari. Em primeiro lugar o médico está dizendo que as radiações em doses baixas não são maléficas a saúde, desconhecendo uma máxima: toda a radiação é grave e acumulativa no organismo, exceto radiações de baixíssimo poder de penetração, que não foi o caso no acidente. Em segundo lugar, ele desconhece que Guarapari sofre sim com os efeitos das radiações ambientais cronicamente aumentados. Isso se reflete em elevada taxas de mutações detectadas por geneticistas brasileiros, inclusive meu pai, Prof. Dr. Warwick E Kerr, que fez estudos da região em uma missão científica da USP na década de sessenta. Em terceiro lugar ele afirma que o acidente já está controlado, que “não motivo para pânico…mesmo no período mais grave, o perigo não era muito alto. E, daqui para frente haverá controle total” será que ocolega desconhece que a quantidade de radiação que vazou já foi suficientemente elevada para ter alcançado a costa da Califórnia –EUA? Se depois de se dispersar por milhares de quilômetros de oceano ainda tem o poder de aumentar a taxa detectável por instrumentos, não foi nada insignificante. Lembrar que, no acidente nuclear de Chernobyl em 1986, que matou 25.0000 pessoas e contaminou por dispersão  ¼ da Europa, houveram as mortes imediatas pelos efeitos agudos da radiação e aquelas que evoluíram para óbito em aproximadamente 2 meses, pelo efeito subagudo. Mas a população que restou foi massacrada por elevações muito importantes das taxas de câncer, quando comparadas com as observadas antes do acidente. E a elevação não é homogênea, pois os efeitos deletérios foram tanto mais graves, quanto mais jovem foi a população irradiada.  Nas crianças de Gomel, a cidade mais próxima do acidente, o câncer de tiróide aumentou  92 vezes em comparação com o registrado previamente. E o câncer papilífero que se manifestou foi uma variante mutante muito mais maligna,  localmente invasiva e que gerava metástases pulmonares precocemente. E aumentou muito também o câncer linfático e as leucemias. E o pior, eu diria, é que a incidência somente começou a aumentar significante após o 5º ano do acidente, atingindo seu apogeu 10 anos após  e daí ninguém mais se lembrava de  Chernobyl, já não era notícia. É demonstração da mais profunda ignorância o médico falar que radiação não faz mal se respaldando no fato que ela existe naturalmente em algumas cidades brasileiras e o mais grave é usar sua autoridade de profissional da saúde para desorientar a população. O colega só citou Guarapari, mas no morro do ferro de Poços de Caldas a radiação é tão elevada que aumenta significantemente a taxa de abortos e anomalias fetais em humanos, encontrando-se  insetos e outros animais defeituosos em incidência muito maior que no restante do país.  Foi um festival de mutações detectadas pelo departamento de Genética da USP de Ribeirão Preto nas populações estudadas dessa região. Ridículo o uso de máscaras para se proteger de radiação. Ridículo ficar em casa para se proteger de radiação. Ela atravessa muros, portas, concreto e atinge nosso patrimônio genético sem pedir licença. Só há uma solução: ficar longe dela. É um inimigo silencioso e letal. Gradualmente se acumula em nosso organismo e ao atingir a dose crítica desenvolve-se o câncer, uma das mais prováveis explicações pela qual a população idosa é a que tem a maior incidência de câncer. É a que ficou por mais tempo exposta aos seus efeitos. Outra pérola: comparar os níveis de radiação de Tóquio (vinte vezes maior do que o normal)  com o que recebemos naturalmente do cosmo, como se  fosse desprezível. Se assim fosse, não haveria aumento da incidência de câncer quando recebemos maior carga de radiação cósmica nos buracos de ozônio e nos que voam continuamente, com pilotos e funcionários do serviço de bordo (até em animais, para aqueles que lêem revistas de veterinária).  O médico tem que ser muito cuidadoso ao expor suas opiniões,  e agora me refiro a todos, pois sua palavra tem peso enorme. Mas nem tudo é negro nesse lamentável acidente japonês. Uma das coisas que mais admirei em todo o episódio foi a equipe de técnicos e engenheiros que estão lá em Fukushima tentando revolver o problema. Eles merecem UM ELOGIO, que compartilho com uma médica e grande amiga, também formada na USP de Ribeirão Preto, que escreveu: Os mártires que estão, pessoalmente resfriando os reatores, sabendo que estão condenados a morrer, (!!!)  e  já morreram 15 deles …!!!!!, que estão se sacrificando não apenas  para  salvar suas famílias ou seus  conterrâneos,…mas o mundo todo. Um  exemplo para o mundo todo!!!!!!Temos, aliás, MUITO A AGRADECER a eles. Quantos de nós, não japoneses, faríamos tamanho sacrifício pela Humanidade?????? Essa médica sabe que a radiação é perigosíssima. Será que apenas nossa faculdade de medicina ensinou o que todas deveriam ter ensinado?

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